Os tempos mudaram. Essa expressão não fazia muito sentido para mim, porque ao ouvi-la, sempre havia uma associação com choques de gerações, talvez pela pouca idade e falta de compreensão de detalhes do contexto, despercebidos até então. Mas que mudaram, mudaram.
Foto extraída de:http://pantanalbonito.blogspot.com/2009/10/primavera-na-estancia-mimosa-ecoturismo.html
Hoje percebo nitidamente que os guavirais estão sumindo, desaparecendo do cerrado. A matriz econômica força qualquer proprietário de terra a incorporar monoculturas e gado, ainda, na região. Isso é luta árdua. Os fazendeiros já não se contentam com milho, feijão, arroz e outros cereais que abasteciam as mesas e lhes garantia a educação diferenciada aos descendentes; agora é preciso adaptação ao sistema gerador de capital baseado em energia. Energia para o homem animado, orgânico e para o homem idealizado, racional, impecável. Se não houver energia, nada funciona, mas se o novo paradigma energético for levado a cabo, não haverá energia para o outro homem: o animado, orgânico.
Foto extraída de: http://bonitopantanal.blogspot.com/2008/11/bonito-promove-em-novembro-7-festival.html
Assim é que o cerrado vai perdendo espaço para a cana de acúcar e para as usinas de álcool. Sob o pretexto de trazer progresso econômico para a região, os governos, que representam o povo, vão impondo e materializando abomináveis idéias, sem a menor preocupação com o homem comum:animado, orgânico.
Foto extraída de: http://www.useplanta.com.br/category/planta/gabiroba/#awp::category/planta/gabiroba/
Vi uma fazenda de gado ser transformada em fazenda de plantação de cana. Os fazendeiros mais tradicionalistas estranharam a atitude do vizinho criador convicto de gado de corte e afamado por seu plantel selecionado, com matrizes importadas, que da noite para o dia mudou de ramo. Algo muito sério houve para que isso ocorresse, mas o quê? De certo ele teria alguma informação privilegiada e estava se ajeitando para então lucrar lá na frente. São desconfiados, eles.
Foto de Adriana Saldanha, extraída de: http://espnbrasil.terra.com.br/caravanadoesporte
É, a uva do cerrado agora já não tinha mais o sabor doce que marcava os encontros de famílias inteiras nos campos às tardes para catar a deliciosa guavira. Soube de ouvir contarem, que muitos casais conhecidos se formaram catando guavira. Bons tempos idos e com risco de nunca mais voltarem a mostrar um guaviral como antes. Uma pena, mesmo.
Foto extraída de:http://www.bonitoecological.com.br/index.php?idcanal=42
Resta-nos comprar um picolé da fruta do Delícias do Cerrado, se tiverem, e voltar a sentir o sabor das tardes de verão nos campos de guavira do nosso Mato Grosso do Sul. Maldita macroeconomia, malditos os cegos de espírito.
Esse texto é uma homenagem à dona Maria, sul-matogrossense da região do Apa, que sabe contar histórias como ninguém e que também se identifica com vários aspectos abordados no texto. Mas, principalmente com o da saudade da mocidade e das nuances que a envolviam.



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