Que eu não sou muito convencional, isso quem me conhece sabe bem. Meio sem pavio, falo o que penso nas horas em que me calar talvez fosse uma melhor estratégia. Mas, concordo com a Paula Barros, tem hora que certas falas não coadunam com a verdade, e se eu me calar, é como se me arrancassem a alma, a própria vida e aí eu estaria avalizando a imbecilidade, a minha própria, por nada fazer, nem ao menos tentar.
É com esse comportamento, que não sei distinguir se é sentimento situacional ou demência mesmo, que tenho sobrevivido esses quarenta e nove anos.
Bem, mas quero falar mesmo é dos tais quase vinte e oito anos. Casei-me com uma mulher metade japonesa, um quarto brasileira e um quarto italiana. Amor à primeira vista, desses que se não emplacar o cara fica metade pelo resto da vida.
Emplacou. Tem havido altos e baixos, tempestades tropicais e subtropicais, nevascas, ciclones e “otras cositas más” em nossas vidas, mas temos sobrevivido com alguma dignidade, ainda.
Sou meio racional, digo meio porque não consigo planejar. E só porque planejei tenho que matar a emoção. É um problema isso. Se intuo o contrário, mudo de rumo rapidinho e o combinado já não vale mais. Acho que é instinto de sobrevivência o nome disso, é assim que entendo.
Bem, casamos. Ela com seus cinco meses de gravidez, dezessete anos. Cheia de orgulho e vazia de experiência. Eu, do alto dos meus vinte e um anos era totalmente imaturo, um menino. Tudo acertado pelas circunstâncias para culminar com um tremendo caos. Crianças sem juízo.
Não há senso em começar assim e continuar caminhando achando que as coisas se acertam por si só. Mas, acreditem ou não, tem sido assim. Está dando certo. Claro que a paciência e tolerância orientais são o que faz o fiel da balança manter-se equilibrado.
Mas aquela gravidez continuava em curso. E aí é comum planejar e buscar nomes, idealizar sonhos e tudo que, quem já passou ou passa, sabe como é. A escolha do nome é coisa séria, pensávamos. Então, vamos escolher o nome. Depois de passar por várias opções, empacamos em dois deles: Mayara e Talita. Que dificuldade. Chegamos à conclusão que Talita era o nome. Acertamos, fizemos juras disso e daquilo, mas o nome estava decidido, já não era um problema.
Dia treze de outubro de mil novecentos e oitenta. O dia D-1. Noite de primavera, muita chuva no cerrado. Muito sono. Muita dor e uma mulher tentando dizer que algo não estava bem. O sono era pesado demais. O medo e a insegurança mais ainda.
- Dorme, dorme que isso passa logo. Não passava. E não passou.
Pela manhã, dia D, portanto, visita ao médico. Veio a constatação óbvia: você está em trabalho de parto. Vamos para o hospital que já vai romper a bolsa.
Fomos. E não é que o médico estava certo. Algumas horas depois nascia uma menina com dois probleminhas, segundo o pediatra. Bem, pais e mães sabem o que isso significa. Quase desabei, mas perguntei:
- Doutor quais são os probleminhas?
Ele:
- Nasceu sem dentes e careca.
Quase dei nele, mas relaxei e sorri. Era um brincalhão o Dr. Leles, ex-controlador de tráfego aéreo, também.
Ora, ora, então estava tudo bem. A criança bem, a mãe estava ótima, cabia a mim correr ao cartório e registrar a herdeira do reino do nada. Fiz meu papel direitinho. Registrei a menina. Agora tinha nome. Voei para o hospital, não antes de ligar para os amigos distantes, parentes próximos e falar de minha, de nossa alegria. Cheguei ao hospital e já fui mandando:
- Aí, registrei a menina, Salete.
Salete:
- Que bom. Botou o nome de Talita, como combinado?
Gelei. Sabia que tinha algo estranho, pois o nome não fechava bem aos ouvidos. Acho que com ar de surpreso, respondi perguntando:
- Era Talita que a gente tinha combinado?
Ela, a Salete:
- E não foi o nome escolhido, Tadeu?
Eu, com ar mais surpreso ainda:
- Ué, eu achei que era Mayara. Era Talita? Tem certeza?
Ela:
- Claro que tenho. Você registrou como Mayara?
Eu:
- É, botei Mayara. Fiz besteira, né?
A mãe:
- Não, tudo bem. Tanto faz, o importante é que está tudo bem, ela está bem, eu estou bem e amanhã saio daqui.
Calado, assenti com a cabeça concordando.
Mayara!
Dia quatorze de outubro de mil novecentos e oitenta, o dia em que eu saí do chão e andei nas nuvens pela primeira vez. Depois andei mais algumas vezes, mas isso já é outra prosa.