Deixe a luz passar!

Deixe a luz passar!
Fiat lux!!!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Qual o sabor do amor?



O amor estava solto e passeava pelo ar.
Eu nem sequer sabia que ele tinha esse poder.
Mas tem.

Primeiro senti seu cheiro; mesmo sem saber de onde, senti.
Deslizou suave por meus neurônios, atacou minhas sinapses.
Penetrou fundo no meu ser.
Senti seu sabor indefinido. Amorfo? Definitivamente, não.

Depois eu o vi.

Não sei como, mas vi nitidamente.
Atingiu o ponto mais escondido de minha vontade e me fez cativo.
Algo mudou em mim, não sei bem o quê, mas mudou.

Agora já sinto a presença do que me despertou a alma.

A consciência de que a vida está além de mim, apesar de mim.
Descuido, talvez, dos sentidos alerta.
Ensinados a saber o óbvio, bem treinados na arte do esquecer, do não sentir despreocupado.

Onde estava meu instinto,
Químico amor?
Atacou minha juventude sem piedade, com crueldade até.
E depois com crueldade maior ainda me deixar sem chão, sem rumo, céu sem estrelas, sem farol, nau desgovernada de encontro aos rochedos.
Tempestade tropical, ciclones caribenhos a arrebatar o que sobrou de mim, dessa memória.

Misto de ódio e bálsamo que alivia e atormenta.
E o que eu faço com todo esse amor aprendido e apreendido,
Tão suavemente imposto?
Será que ele não sabe de que matéria sou feito?
Esse tal amor é estranho mesmo.
Começo a pensar que, amor personificado, não tem sentimento.
Ora, que paradoxo é esse?

É a essência.

É a vida real em choque com a idealizada.
Talvez unilateral. Talvez desiludida.
Talvez só a vida, sem limites ou conceitos e menos ainda preconceitos.
Sem qualquer antítese programada.
Sem amarras ou correntes para serem arrastadas em noite de lua cheia, assombrando os ainda não iniciados.
Um vício psicossomático sem cura. Graças!
Doce, salgado, amaro amor?

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A imagem!!!


Ela se via e só.
Por mais que quisesse estar acompanhada,
Acabava olhando para si mesma e isso lhe bastava.
O Sol era seu cúmplice.
Por isso brilhava.
Sem ele nada acontecia, ela não acontecia.
Mas, um dia ela se deu conta de que não era senão a projeção
De uma imagem desenhada, bem desenhada no espelho
Não bastaram os sorrisos e os amigos, muitos eles eram.
Mas ela se via só.
Como se bastava, nada precisava.
A não ser do Sol.
Isso ela sabia, e assim vivia, só.
Com a presença do Sol.
Ninguém ousava lhe falar de outras estrelas, de maior grandeza.
Pois o Sol era o seu grande interesse vital.
E era.
Outro dia chegou, como tudo, em seu ciclo
Viu-se uma vez mais e sem se dar qualquer explicação sumiu.
O espelho se quebrou!
Ela reapareceu com luz própria e despida de qualquer lembrança.
Os amigos não a reconheceram, mas se apaixonaram pelo que viram.
Saiu pra olhar.
Descobriu a Lua, um satélite, e muitas, muitas estrelas.
Se emocionou.
Chorou,
Lágrimas desceram suaves por sua face.
Sentiu o sal tocar sua língua.
Descobriu o sabor.
Sorriu!
Não mais se importou que aparência tinha.
Era outra mesmo.
Ensaiou um blues,
Mas dançou mesmo foi ao som frenético de um frevo pernambucano.
Despertou com força pra vida e nunca mais sentiu falta de sua imagem
Refletida, bem desenhada no espelho.
Simples assim!

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Quase vinte e oito anos!!!


Que eu não sou muito convencional, isso quem me conhece sabe bem. Meio sem pavio, falo o que penso nas horas em que me calar talvez fosse uma melhor estratégia. Mas, concordo com a Paula Barros, tem hora que certas falas não coadunam com a verdade, e se eu me calar, é como se me arrancassem a alma, a própria vida e aí eu estaria avalizando a imbecilidade, a minha própria, por nada fazer, nem ao menos tentar.

É com esse comportamento, que não sei distinguir se é sentimento situacional ou demência mesmo, que tenho sobrevivido esses quarenta e nove anos.

Bem, mas quero falar mesmo é dos tais quase vinte e oito anos. Casei-me com uma mulher metade japonesa, um quarto brasileira e um quarto italiana. Amor à primeira vista, desses que se não emplacar o cara fica metade pelo resto da vida.
Emplacou. Tem havido altos e baixos, tempestades tropicais e subtropicais, nevascas, ciclones e “otras cositas más” em nossas vidas, mas temos sobrevivido com alguma dignidade, ainda.

Sou meio racional, digo meio porque não consigo planejar. E só porque planejei tenho que matar a emoção. É um problema isso. Se intuo o contrário, mudo de rumo rapidinho e o combinado já não vale mais. Acho que é instinto de sobrevivência o nome disso, é assim que entendo.

Bem, casamos. Ela com seus cinco meses de gravidez, dezessete anos. Cheia de orgulho e vazia de experiência. Eu, do alto dos meus vinte e um anos era totalmente imaturo, um menino. Tudo acertado pelas circunstâncias para culminar com um tremendo caos. Crianças sem juízo.

Não há senso em começar assim e continuar caminhando achando que as coisas se acertam por si só. Mas, acreditem ou não, tem sido assim. Está dando certo. Claro que a paciência e tolerância orientais são o que faz o fiel da balança manter-se equilibrado.

Mas aquela gravidez continuava em curso. E aí é comum planejar e buscar nomes, idealizar sonhos e tudo que, quem já passou ou passa, sabe como é. A escolha do nome é coisa séria, pensávamos. Então, vamos escolher o nome. Depois de passar por várias opções, empacamos em dois deles: Mayara e Talita. Que dificuldade. Chegamos à conclusão que Talita era o nome. Acertamos, fizemos juras disso e daquilo, mas o nome estava decidido, já não era um problema.

Dia treze de outubro de mil novecentos e oitenta. O dia D-1. Noite de primavera, muita chuva no cerrado. Muito sono. Muita dor e uma mulher tentando dizer que algo não estava bem. O sono era pesado demais. O medo e a insegurança mais ainda.
- Dorme, dorme que isso passa logo. Não passava. E não passou.
Pela manhã, dia D, portanto, visita ao médico. Veio a constatação óbvia: você está em trabalho de parto. Vamos para o hospital que já vai romper a bolsa.
Fomos. E não é que o médico estava certo. Algumas horas depois nascia uma menina com dois probleminhas, segundo o pediatra. Bem, pais e mães sabem o que isso significa. Quase desabei, mas perguntei:
- Doutor quais são os probleminhas?
Ele:
- Nasceu sem dentes e careca.
Quase dei nele, mas relaxei e sorri. Era um brincalhão o Dr. Leles, ex-controlador de tráfego aéreo, também.

Ora, ora, então estava tudo bem. A criança bem, a mãe estava ótima, cabia a mim correr ao cartório e registrar a herdeira do reino do nada. Fiz meu papel direitinho. Registrei a menina. Agora tinha nome. Voei para o hospital, não antes de ligar para os amigos distantes, parentes próximos e falar de minha, de nossa alegria. Cheguei ao hospital e já fui mandando:
- Aí, registrei a menina, Salete.
Salete:
- Que bom. Botou o nome de Talita, como combinado?
Gelei. Sabia que tinha algo estranho, pois o nome não fechava bem aos ouvidos. Acho que com ar de surpreso, respondi perguntando:
- Era Talita que a gente tinha combinado?
Ela, a Salete:
- E não foi o nome escolhido, Tadeu?
Eu, com ar mais surpreso ainda:
- Ué, eu achei que era Mayara. Era Talita? Tem certeza?
Ela:
- Claro que tenho. Você registrou como Mayara?
Eu:
- É, botei Mayara. Fiz besteira, né?
A mãe:
- Não, tudo bem. Tanto faz, o importante é que está tudo bem, ela está bem, eu estou bem e amanhã saio daqui.
Calado, assenti com a cabeça concordando.


Mayara!
Dia quatorze de outubro de mil novecentos e oitenta, o dia em que eu saí do chão e andei nas nuvens pela primeira vez. Depois andei mais algumas vezes, mas isso já é outra prosa.





Quais os preços da modernidade?

Eu tenho a impressão de que ainda não me dei conta totalmente do que signifique ter um celular. É verdade.

Sábado, depois de deixar meu filho no trabalho, notei que havia esquecido a caixinha de voz em casa. Até aí, dirão: tudo bem, nada de novo. Mas, após essa constatação, tive a certeza de ter perdido um membro: um braço, quem sabe uma perna. Foi aí que caiu a ficha (não resisti ao trocadilho, apesar de orelhão já está quase extinto do nosso universo, penso): algumas coisas entram em nossas vidas e se integram de tal forma, que já não existimos completamente sem elas. Esse é o caso do tal telefone celular. Juro que relutei até onde pude, mas acabei me rendendo por um apelo profissional. Perdi aí minha privacidade e algo mais que não sei bem o que é, ainda.

Podem me chamar de antiquado, retrógrado e quantos qualificativos tiverem à mão, mas a sensação de perda por ter um celular é maior do que a de poder que a modernidade me dá. Essa história de falar a qualquer tempo não me seduz mais. Portanto, só isso já bastaria para por fim ao meu bendito celular, o que seria outra estupidez (a primeira foi ceder ao apelo de tê-lo).

Imagino que há pessoas que ao saírem de casa, façam um “checklist”:

documentos: ok;
chaves do carro: ok;
óculos: ok; e...
Parece que é só, mas essa impressão de que estou esquecendo algo não cessa. O que será? Não consigo me lembrar do que seja. Ah, o mais importante, o celular!
Ele chama a companheira:
- Meu bem, por favor, pegue o celular pra mim. Não sei onde estou com a cabeça. Esquecer logo o celular.
Ela atendendo à solicitação:
-Nossa, você enlouqueceu? Onde já se viu andar sem o celular. Só você mesmo. Ainda bem que se lembrou antes de sair. Aqui, toma, vê se não esquece mais.
Para algumas pessoas nem é um objeto, é antes um lugar: Não, ele não está em casa, não. Mas liga pra ele, ele está no celular.

É, e assim vamos nos modernizando, encurtando as distâncias, ganhando tempo e aquecendo o cérebro até virar pipoca. Juro! Vi um filme no “youtube”. Mas já há vários desmentidos a respeito. Não se pode confiar. E eu nem tentei a experiência. Esqueçamos o filme do ‘youtube’!
Mas, lembremo-nos da pergunta da sábia Vivian: "você questiona o que lê, ou vai acreditando a esmo?".

Aqui é aqui mesmo!!!

clique na imagem para vê-la ampliada!

De volta ao empirismo?
Ou será apenas uma carência formal da educação?

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Você, Maria Clara!!!


Eu bebi da fonte clara e transparente.
A luz cortava o ar, batia na água e refletia todas as cores do arco-íris.
Eu olhei o céu e vi um anjo passando, voando sereno.
A clara luz o iluminou!

Seria ele a própria luz?
Ou seria a luz o próprio anjo?
Talvez um anjo de luz.

Não sei a resposta.
Talvez o anjo queira esclarecer, clarear,
Sorrir e chorar um pouco sua quase humanidade.
Seu olhar enigmático!

Como posso entender a forma perfeita com minha visão imperfeita?
Também não tenho olhar interior que me possa ajudar.
Talvez o anjo o queira,
Com sua simplicidade e objetividade angelical.

Mas também, não sei como perguntar a um anjo.
Só os vejo, por aí,
Em uma comunicação surda e muda, apenas visual,
Lindamente visual!

Vi o que o anjo produziu.
Telas lindas, vivas e falantes.
Mas que se calaram diante de não sei o quê.
Talvez o anjo saiba.

Pena eu não saber a língua dos anjos.
Sabe, eu apenas os vejo, lindos, a voar e brincar.
Já não sei se sou capaz de voar também.
Talvez pudesse, se tentasse, quem sabe?

Será que alguém ainda se lembra de como fazê-lo?
De como era bom ter o vento soprando forte contra o rosto?

Ah, há os sonhos que tentam resgatar a condição perdida.
Mas sempre fica a sensação de que eram apenas sonhos.
Uma angústia por saber não poder mais.
Uma ansiedade torturante em quase conseguir não voltar do sonho!

E voar alto, sem pressa e sem razão para voltar a terra.
Qualquer distância já não faz sentido.
Qualquer desejo já foi realizado.
O que sobra então?

Como reaprender o que nem sei se soube um dia?
Apenas intuo que já estive lá e que guardo uma recordação mal definida.
Será?

sábado, 9 de agosto de 2008

Memória!!!


Gosto de sentir o cheiro do vento.
Gosto de sentir o sabor do vento.
E quando minha memória temporal avista as várias cenas guardadas
Revivo cada momento aberto pela chave do vento.
As maravilhas dispensam no ar seu aroma e despertam o menino perdido nas manhãs de primavera
Vagueando por entre escombros e entulhos abandonados
Tudo cravado em cheiro e cor na minha mente.
Parece que o tempo deixa de existir e é só respirar que a viagem começa
É breve, certo, mas a vida é breve.
Não há dimensionamento possível nesse entendimento.
Há apenas a ligação entre o que foi e o que será sempre só seu.
Não há multidões nem multiversos capazes de criar ou impedir isso.
Mas há um silêncio adimensional criado entre o ser e o tempo/espaço.
Talvez uma lacuna sem forma, mas paradoxalmente definida, no viajante
Ou então, quem sabe, coisas que navegam pela ponte do tempo e nos pegam reféns frágeis, cansados da viagem.
Mas, se hoje sei que navego numa velocidade incapaz de ser mensurada, sei também que não domino sequer a vontade de lá estar.
Sei apenas que o vento é o senhor dessas emoções.
É ele quem dita, sem hora marcada, a viagem da minha vida.